Tempo de leitura: 4 minutos

Quando vi a manchete dizendo que a IBM havia demitido quase 8 mil pessoas para colocar inteligência artificial no lugar, confesso: minha primeira reação foi aquele impulso quase infantil de dizer “tá vendo? IA não dá conta, gente ainda é insubstituível”. Só que depois de respirar e ler o cenário com mais atenção, entendi outra coisa: não foi um fracasso da IA. Foi uma reorganização inevitável.

Conteúdo do artigo

Em janeiro de 2023, a IBM desligou cerca de 7.800 funcionários, planejando substituir até 30% das funções existentes por automação e IA. No setor de recursos humanos, por exemplo, a adoção de ferramentas como o AskHR eliminou 94% das tarefas rotineiras, gerando uma economia significativa (segundo a reportagem do site Mobile Time). Mas essa automação acabou exigindo novas contratações. Com o avanço tecnológico, surgiu a necessidade de mais profissionais em engenharia de software, vendas e marketing. Assim, a mesma tecnologia que causou demissões passou a impulsionar recontratações em áreas que exigem pensamento criativo, habilidades interpessoais e atuação estratégica.

O problema não é a IA. É achar que ela resolve tudo sozinha.

Muita empresa ainda vê a IA como um substituto de gente. Eu vejo como um divisor de águas. Ela separa quem sabe fazer o básico de quem entrega inteligência aplicada. Ela tira o peso do repetitivo e abre espaço pra aquilo que a máquina ainda não faz: conexão humana, leitura de contexto, escuta qualificada, tomada de decisão com senso de realidade. Agora, tem uma pergunta que não quer calar: e o pequeno negócio no meio disso tudo?

Porque, sejamos honestos: não é só a IBM que precisa se adaptar.

Se você tem um pequeno negócio, a automação não é um luxo — é uma necessidade de sobrevivência. Automatizar atendimento, relatórios, processos internos pode sim reduzir custos. E vai, inevitavelmente, exigir menos gente pra executar tarefas operacionais.

Mas isso não significa menos gente no negócio. Significa gente diferente. Gente que pensa junto, que cria, que entende o cliente, que propõe melhoria contínua. Função repetitiva tende a desaparecer. Mas o que exige presença, escuta e tomada de decisão? Isso só cresce.

E tem mais: nem todo mundo vai conseguir acompanhar essa mudança.

É fácil falar sobre IA e automação quando se tem acesso à tecnologia. Mas a realidade brasileira mostra outra coisa. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2023, realizada pelo Cetic.br (vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil) e apresentada na Semana de Inovação da ENAP:

Cerca de 29 milhões de brasileiros ainda não utilizam a internet — o que representa aproximadamente 16% da população. E apenas 22% dos brasileiros com 10 anos ou mais têm condições satisfatórias de conectividade. Isso inclui velocidade decente, custo acessível e acesso por múltiplos dispositivos.

Agora segura essa: enquanto 73% da classe A estão conectados em boas condições, só 3% das classes D e E têm esse mesmo privilégio. É desigual, é estrutural e, sim, é um problema de política pública. Então vamos parar com o papo de que “é só querer, se esforçar e estudar IA”. Tem gente que não vai ter tempo nem estrutura pra se preparar. E, sejamos sinceros, já não tem hoje.

Nem todo mundo vai conseguir se adaptar a tempo. Nem todo mundo tem os mesmos pontos de partida.

#NoFrigirDosOvos

A IA não está vindo tirar empregos. Está vindo expor o quanto ainda estruturamos negócios em torno do que pode (e deve) ser automatizado. O desafio agora é outro: saber quem você ainda precisa manter por perto — e pra quê. Porque a pergunta certa não é “quem eu vou cortar?”. É: “quem vai me ajudar a crescer num cenário onde o básico já virou automático?”

E mais: como garantir que todos tenham a oportunidade de participar desse novo cenário? A exclusão digital é real e precisa ser enfrentada com políticas públicas eficazes e iniciativas que promovam a inclusão tecnológica.